Por que ler Ponciá Vicêncio?

Fortemente impactado pela leitura da obra da escritora mineira (afrodescendente) Conceição Evaristo, que sob o viés de denúncia narra, sob um ponto de vista claramente feminino e negro, três tipos de exclusão social: a étnica, de gênero e de classe e, em todas, incidindo sobre a personagem que nomeia o romance.
Contemplando, também, outros temas recorrentes no nosso dia a dia, como machismo, violência contra a mulher, prostituição e a perda identitária. É um texto marcado pela etnicidade cultural da voz. Quem fala é uma mulher negra com as marcas do preconceito carregadas e sentidas na pele. 
As problemáticas raciais e de gênero, presentes no livro, contribuem para promover um debate qualificado sobre os temas e eleva a narração ao patamar de denúncia social, por relatar acontecimentos injustos que ocorrem recorrentemente com as mulheres negras e pobres.
A obra se compromete com a situação dos afrodescendentes em situação de total desassistência e questiona a Abolição, que não viabilizou condições de vida digna aos escravos libertos e seus descendentes.
Em outra obra, de outra autora afrodescendente: Úrsula de Maria Firmina dos Reis, a personagem Mãe Susana, diz ao personagem recém alforriado Túlio:
“- Tu! tu livre? Ah não me iludas! – exclamou a velha africana abrindo uns grandes olhos. (...) Liberdade... eu gozei em minha mocidade! – continuou Suzana com amargura. Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu.”
Não é por ter recebido uma carta de alforria que o negro (Túlio) seria livre num país racista. Ou seja, embora libertos por força de lei, permaneciam segregados em função da discriminação racial e pela ausência de aporte estatal que lhes garantisse os direitos oriundos da Lei Áurea.
Quanto à exclusão de classe, tem-se a segregação social e urbana de grupos como as prostitutas, a exemplo de Bilisa, que ficam restritas ao espaço da zona, dos negros encarcerados na delegacia onde trabalha Luandi, irmão de Ponciá, e das domésticas que, como Ponciá, descem o morro ou atravessam a cidade até a casa das patroas.
Machismo, comportamento que tende a negar à mulher a extensão de prerrogativas ou direitos do homem, percebe-se, juntamente com a violência contra a mulher, no relacionamento abusivo do marido para com Ponciá na cidade grande.
A perda de identidade no sobrenome “Vicêncio” provém do antigo dono da terra, denotando uma marca de subalternidade. Assim, denunciando a ausência de um dos direitos de cidadania para aqueles descendentes de escravos. 
Por fim, o relato estende-se pelo penoso caminho de vazios e derrotas. Nele, menina ou mulher, vai sendo alijada dos entes queridos e de tudo o que possa significar enraizamento identitário. Ponciá chega a cair na letargia que a faz perder-se de si mesma. Mas como carrega a força de seus ancestrais, ainda que no fundo poço, consegue voltar às suas origens: ao rio, ao arco-íris, ao barro.
Conceição Evaristo, que muito estudaremos em sala de aula, além de romancista, contista, é também brilhante poetisa, conforme pode-se apreender na poesia que segue:
EU-MULHER
Uma gota de leite me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue me enfeita entre as pernas
Meia palavra mordida me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos inauguro a vida.
Em baixa voz violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo.
Antes agora o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher abrigo da semente moto-contínuo do mundo.
(EVARISTO, 1990)