Por que ler Caderno de memórias coloniais?

Bah! Que leitura deliciosa. Para quem não sabe, a expressão “bah” é uma forma linguística que integra o dialeto gaúcho. “Um dialeto não é nada mais do que uma variedade linguística, ou seja, um termo que designa o modo de falar de determinada região ou de determinado lugar. E esta expressão resume o impacto da leitura da obra de Isabela Figueiredo, jornalista, professora e escritora, nascida em 1963 na cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique.
Após a independência de Moçambique, em 1975, rumou sozinha a Portugal, incorporando o continente dos “retornados”. Retornados é a designação dada aos cidadãos portugueses que, entre 1974 e 1976, após a independência das várias colônias portuguesas na África tiveram que se refugiar em Portugal. Meu Deus, quanto rodeio!
A obra Caderno de memórias coloniais trata do acerto de contas da autora com o passado colonial de Portugal e com seu pai, um eletricista português radicado em Moçambique. Pai este que parece personificar Portugal: desprezando e explorando os nativos. O mais interessante é que este livro teve origem num blog da autora.
Na leitura, percebe-se as memórias de uma menina “branca de alma preta”, vivendo o despertar da sexualidade na adolescência, as injustiças sócio-raciais de uma Moçambique que está em vias de deixar de ser colônia e a admiração pelo pai. Porém, a relação da autora com o pai adquire caráter ambíguo: de atração e repulsa, de afeto e raiva, de aconchego e medo. Sendo assim, a obra transcende as questões de poder colonial, racial, social e de gênero, transformando-se, também, numa narrativa de amor filial conturbado e indestrutível.
O livro não segue uma linha temporal. Como se Isabela fosse abrindo as gavetas da mente e revisitando memórias aleatórias. Vai e volta no tempo entre suas lembranças de família e acontecimentos históricos e políticos que dão o cenário para a obra.
Ah, dia 15 de outubro de 2020, em plena pandemia, fiz uma live com a autora: eu, aqui na minha Porto Alegre dos Casais e Isabela Figueiredo, de Lisboa. Durante uma hora e quarenta minutos conversamos sobre a obra, tirando algumas dúvidas que se poderia ter. E uma das perguntas que lhe fiz: Como foi descrever um pai tão antagônico? Ou como foi conviver com este pai? E a resposta veio de supetão: Terapêutico, professor! E foi muito fácil escrever esta obra. Foi um texto que me saiu como um jorro de lava de um vulcão que vive em erupção adiada. Eu penso que esperava a morte do meu pai para poder escrevê-lo. E assim que fiz o luto, assim que organizei as minhas emoções fazendo alguma psicanálise, o texto começou a surgir com uma força e uma violência incontidas. Devo dizer que este livro não foi muito trabalhado. Ele é mesmo matéria bruta, não lapidada. Sim, sei que meu pai foi um homem violento, machista, racista, mas, em contrapartida, a pessoa mais importante da minha vida. A pessoa que mais amei. Que me acompanhou para todo o lado, que me protegeu, com quem troquei impressões sobre a vida.
E no posfácio, Isabela diz que continua a escrever esse livro em tudo o que faz: “O ‘Caderno de Memórias Coloniais’ nunca estará acabado para mim. A minha memória tem um caráter fragmentado, muito sensível aos eventos do cotidiano. Há sempre alguma história que me vem à cabeça e que lamento não ter incluído na narrativa.”
Portanto não é somente o tema que torna o livro fascinante, mas o modo como Isabela Figueiredo o trata.