Categoria 3 - 1 º Lugar - Ana Júlia Marks

Querida Anne Frank, 

 

Ontem terminei de reler seu diário. Apesar de esta ter sido a segunda vez que folheei as páginas de seus escritos, emoções muito mais intensas se abateram sobre mim do que na primeira vez em que os li. Senti, a quilômetros e a décadas de sua história, o frio impiedoso de Amsterdã; escutei os sussurros dos Van Daan, como se também fosse moradora do “Anexo Secreto”; e fui, diversas vezes, assaltada pela esperança quando, ao redor do rádio, todos ouviam as últimas notícias sobre a Guerra, pensando no momento em que poderiam voltar a viver dignamente. 

 

Atravessei madrugadas, seu diário em mãos, experimentando um pouco do pânico de ser perseguida por outros seres humanos sem um motivo razoável. Fiquei aterrorizada com os relatos das bombas lançadas a poucos metros do “Anexo Secreto”: por algum tempo, o ano não era mais 2021, e sim 1944, e esperávamos, encolhidas em um canto, os estouros ensurdecedores cessarem. À nossa volta, o horror estava estampado nos olhares de todos, e senti uma profunda raiva dos soldados de fardas verdes que patrulhavam as ruas. Ah, Anne, como gostaria que nada disso tivesse te acontecido! 

 

Acredito que agora eu te compreenda mais do que nunca: me encontro igualmente enclausurada. Da janela do meu quarto, observo uma rua praticamente vazia, pontuada de um ou outro sujeito "mascarado’’. Desta vez o culpado não é o ser humano, e sim um vírus terrível que insiste em nos privar da vida como sempre a conhecemos, e eu me encontro numa espera - a qual parece eterna -  por regressar ao mundo real.  

 

Penso que, em outro tempo, teríamos sido boas amigas, Anne. 

 

Sinceramente, 

Ana Júlia Marks